quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

AQUELE HOMEM


Este poema faz parte do livro "Três Sentimentos em Idanha e outros Poemas Portugueses", publicado em Portugal pela Editora Temas Originais, de Coimbra, em 2011. Agora será incluído no meu livro "O Uso do Punhal", já publicado no Brasil, em 2013, pela editora Escrituras-SP, e que está sendo traduzido na Espanha pela poeta Montserrat Villar González.
 
 
 
 
AQUELE HOMEM

 

Sou aquele homem que não voltou,

que saiu de casa ao amanhecer

e se perdeu para sempre.

 

Sou aquele homem da fotografia na parede

da casa fechada por dentro.

 

Sou aquele homem que inventou a tarde,

mas não viu anoitecer.

Sou aquele homem que se perdeu sem saber.

 

Aquele que não soube nunca,

sou aquele que não soube.

 

Sou aquele homem que desapareceu,

aquele que acreditou,

e ao se ausentar de si mesmo

sentiu o vazio absoluto de todas as coisas.

 

Sou aquele homem que se foi

e quando pensou em voltar

não tinha mais tempo,

era tarde demais.

 

Sou aquele homem que se desfez

depois de enlouquecer

e enlouquecido

tentou refazer o seu destino.

 

Sou aquele homem que engoliu

um rio

e se afogou adormecido.

 

Aquele que falou sozinho

diante do espelho

se vendo do avesso.

 

Sou aquele homem que falava com as pedras

palavras desesperadas

que saltavam da boca

como gafanhotos doentes.

 

Aquele homem que conversava com os santos

numa igreja sem portas

e que dizia silêncios

em sílabas de gesso.

 

Sou aquele homem

que enfiou um punhal no coração

como um poeta romântico do século 18.

 

Sou aquele homem quase lírico

que chamava os pássaros

para uma ceia de sementes.

 

Aquele homem que rezava

com os anjos expulsos do céu,

sem saber que eu estava

expulso de mim.

 

Sou aquele homem que amou 30 mulheres

e matou-se por amor 29 vezes.

 

Sou aquele homem que ao jogar xadrez

fugiu com a Rainha

para um castelo medieval.

 

Aquele que diante de Deus

pediu para ser destruído,

mas como castigo deixou-me viver mais.

 

Sou aquele homem que amou

         mulheres de porcelana,

         com sexo de porcelana,

         boca de porcelana,

         beijo de porcelana,

         língua de porcelana.

 

Sou aquele homem de porcelana

que se quebra como uma xícara

que cai da mesa.

 

Sou aquele homem que saiu para dar uma volta

e esqueceu de regressar.

3 comentários:

  1. Encontrei na postagem sua de 28.12.2016 - Impressionei com tamanha capacidade de reflexão e poesia de singular beleza.

    Para escrever um poema de tal grandeza, só um homem de cultura excepcional e inspiração profunda. Deve doer muito gestar esses versos, mas como é maravilhoso. Encantada Poeta Álvaro. Te admiro cada vez mais.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Nada me deixa mais feliz do que ler seus belos poemas!
    Feliz Ano Novo poeta!

    Desculpe,ter removido o comentário,foi por um erro do texto.

    ResponderExcluir