terça-feira, 31 de julho de 2018

UMA PEQUENA HISTÓRIA DE MÁRIO QUINTANA

Nos 112 anos do poeta e grande tradutor Mário Quintana, lembrei-me de uma história dele, que conheci pessoalmente, aqui em São Paulo e em Porto Alegre. O poeta nunca se casou. Viveu sozinho a vida inteira. E sempre morou em quartos de hotel. Tinha muita dificuldade de viajar para outras capitais do Brasil. Sua vida era Porto Alegre. Mário Quintana era jornalista, trabalhava no Correio do Povo. Morava, então, num quarto do Hotel Majestic, no centro histórico de Porto Alegre. Com problemas financeiros, o jornal fechou. E Mário Quintana, desempregado, não conseguia pagar o hotel. Foi despejado. Sabendo da história, o ex-jogador Paulo Roberto Falcão, da Seleção Brasileira, cedeu ao poeta um quarto no Hotel Royal, de sua propriedade. Ao visitá-lo no novo endereço, um amigo disse: "Quintana, é pequeno demais". O poeta respondeu: "Eu moro dentro de mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder minhas coisas".   

terça-feira, 19 de junho de 2018

O TOCADOR DE FLAUTA




Inicialmente publicado em Portugal, “O Tocador de Flauta” (Editora Temas Originais, Coimbra, 2012) teve uma trajetória marcante na obra poética de Álvaro Alves de Faria, já que, na época, mereceu atenção especial dos apreciadores de poesia portugueses. O livro foi discutido várias vezes em reuniões de poetas e escritores e foi também analisado na Oficina de Poesia da Universidade de Coimbra, dirigida pela ensaísta e professora de Literatura Graça Capinha. Trata-se de um livro que pode ser lido como um poema-romance, com 125 poemas ou 125 pequenos capítulos. Assumindo o papel de pastor, o poeta fala o tempo todo com suas ovelhas, percorrendo as aldeias de Portugal, campos, igrejas, vendo sua gente, costumes, planícies imensas sempre presentes nesse andar pelas pedras e montanhas, seguido por suas ovelhas com quem divide o alimento e abriga-se do frio e das chuvas. “O Tocador de Flauta” é um diálogo com Alberto Caeiro, um dos poetas de Fernando Pessoa que Álvaro mais admira, desde a adolescência. Álvaro Alves de Faria escreveu este livro utilizando a linguagem da poesia portuguesa, à qual se dedicou por 15 anos seguidos, resultando em 18 livros publicados em Portugal, fruto de um mergulho profundo na poesia da terra de seus pais, onde vive toda sua família. “Fui em busca de mim”, costuma dizer o poeta, observando que lá estava sua vida e sua poesia, sua antecedência marcada em poemas com a melodia, o ritmo, as palavras da poesia de Portugal, notadamente a Lírica de Camões e a poesia de Fernando Pessoa, além de outros grandes poetas portugueses de várias épocas. Chamado em Portugal de poeta luso-brasileiro, Álvaro afirma orgulhar-se desse trabalho que realizou e, especialmente, do resultado que conseguiu depois de tanta busca por uma narrativa poética que - como ele observa - não encontra mais no Brasil, onde a poesia, sem generalizar, cedeu à facilidade de um tempo em que é proibido sentir. Equivale dizer, um tempo que se nega à própria poesia.     

(Por favor não comentar)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018




A cidade rodopia na minha cabeça
E eu rodopio na cabeça a cidade,
Como um duende doente que não acredita que eu existo,
Essa fada da rua da Consolação que me espera descalça,
A Paulista onde danço meus caprichos e dores que não sei mais curar

Eis a cidade que me comove e me faz chorar nos cantos das noites
No colo das mulheres tristes,
Essas que me recebem com um ramo de flores
E rezam comigo nas igrejas fechadas,
Nos cafés amargurados de açúcar,
O abraço perdido no corpo
O grito que escorre pela boca como saliva enlouquecida.

Assim caminho alucinações de São Paulo de bondes antigos
Que ainda vivem na minha memória,
Os cemitérios que me guardam,
As cartas de amor que esqueci na gaveta,
O incêndio que me queima por dentro 
Quando atravesso a Brigadeiro em busca de uma livraria,
Onde estão os livros mortos
Deixando cair poemas pelas estantes,
Palavras suicidas que se perdem nos sapatos antigos que ainda calço.

Nada quero de ti, cidade, nada quero de ti, senão viver o que me cabe.
Viver a possibilidade de viver, essa angústia de todos os dias,
Os entardeceres que guardo no bolso
como se eu fosse um colecionador de noites.

Estou sempre anoitecendo em mim com tuas luzes apagadas,
Tua ciranda e estações do metrô onde me enfio debaixo da terra
Para pensar um pouco e me procurar, já que fugi de mim
E sou um homem sem alma numa cidade que esqueceu e viver,
Cidade de mil faróis como um navio que naufraga na Praça da Sé
E renasce na São Judas, o santo dos desesperados,
Onde rezo pecados que não cometi, todos os pecados que não tenho mais,
Essa estrela que tenho no céu da boca,
Esse guarda-chuva que guardo debaixo do braço, como um velho homem
Que caminha devagar com mãos trêmulas perdidas nos bolsos.   


Faz alguns dias calcei meus sapatos
mas esqueci meus pés debaixo da cama.

Quero dar a São Paulo um bolo repleto de chantili,
Desses que escorrem pelas bocas dos meninos e meninas das ruas,
Quero cheirar contigo os ópios da cracolândia
E quero dormir nos hotéis sem portas onde eu possa me matar
Sem ser visto por ninguém,
Já que nada importa, nada importa, nada importa, nada importa,
Já que nada importa quero ver os luminosos vermelhos
Na cara dos prédios com olhos de raiban
Os moradores de rua que caminham por tuas ruas,São Paulo,
Em busca da vida que se perdeu,
Um prato de comida dividido com o cão,
Tua solidariedade São Paulo, tua perversidade,
Tua crueldade e teu abraço tantas vezes comovente.
Quero andar de patins e mergulhar no lago do Ibirapuera
Para despedir-me de mim para sempre.

A mulher que amo vai deixar-me amanhã
Mas vou deixar a porta aberta
Para que entrem os pássaros na tarde
E que me falem os deuses da noite.

Amo as putas da rua Aurora com dor que já faz parte de mim. 

Na cidade caminho com meu rádio de pilha que não funciona
E olhos as horas no meu relógio de pulso que parou  4 anos.
Ando assim como quem não anda e parou no tempo,
Porque em São Paulo o tempo deixou de existir
E Deus está escondido na Catedral da Sé arrependido do que fez.

Sou monge de mim e vivo num mosteiro que não conheço.
Tenho minha cama e uma janela que às vezes abro ao sol.
Divido com os pássaros as amoras, as romãs, laranjas, as maçãs.
Só não sei rezar, mas Deus aceita meu silêncio.

Guardo um livro no coração e uma estrela que se apagou,
Aquela que caiu no meu quintal como uma planta.

Ando em mim na cidade que me habita
E me envolve dos pés à cabeça,
Como um amor que não se esquece nunca, que faz sofrer,
Sou assaltado nos meus sonhos em todas as esquinas
E a moça que me olha terna procura um amor qualquer para viver.

Tenho o coração enterrado no Pátio do Colégio.

Cidade cicatriz de mim, São Paulo que guardonuma bolsa,
A rua Frei Caneca onde nasci não tem mais casas de janelas azuis,
Não existem mais casas de janelas azuis
E as floriculturas do Largo do Arouche
estão tristes com a falta de namorados.

Os namorados não existem mais nem se abraçam na Praça da República
Nem vão mais ao cine Bijou para comprar margaridas.

Cidade que nasce e morre em mim,
Teu ferimento é meu ferimento,
Esse ferimento que não sara,
A angústias de todos os dias, de todos os instantes,
Os minutos que não passam mais.

Cidade que me habita, guarda o que tenho de triste
E esquece a possível alegria dos dias inesperados.

Quero apenas viver o tempo necessário para te amar sempre muito mais,
Quem sabe eu me encontre em ti, cidade, com minhas palavras trêmulas.

Guardo em mim o que não guardo e tenho em mim o que não tenho,
A poesia que ainda resta nos teus becos,
É lá que estou entre os pedidos,
Até que tudo termine de vez.

                             Álvaro Alves de Faria    


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A POESIA DE P.F.FILIPINI (PÂMELA FILIPINI)


(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)
 

(Foto de Pâmela Filipini autografando seu livro em São Paulo)

p.f. filipini, que escreve no tuíter, chamou-me a atenção desde que comecei a escrever aqui, pelos seus poemas. Poemas intimistas, profundamente intimistas que, antes de tudo, descrevia o amor, o feminino, a solidão e também a angústia dos tempos amargos que vivemos. Entrei em contato com ela. E começamos a trocar e-mails. Ela tinha, então, 21 anos de idade. Jovem demais para escrever poemas com uma carga existencial marcante. Passou algum tempo ela teve a oportunidade de publicar seu primeiro livro "Folhas dos Ossos - ou o tratado das coisas insignificantes", pela Editora Patuá, de São Paulo, com prefácio assinado por mim, com o título "A poesia da solidão".
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Agora surgiu uma outra oportunidade. De vez em quando um editor de Coimbra, meu amigo, o poeta Xavier Zarco, pede-me que indique algum poeta brasileiro para participar da coleção "Mínima", que ele tem na sua editora, a Temas Originais. Sempre indico alguém, mas na verdade evito fazê-lo porque isso representa arrumar inimizades dos que se sentem preteridos. O que, aliás, é algo que não existe. Não descarto ninguém. Mas sempre dá problema. Desta vez, esse editor me pediu um livro e eu indiquei a Pâmela. Aceitou. A p.f.filipini então reuniu 40 poemas que tinha guardados e fez um livro que recebeu o título "Ensaio sobre a Geografia dos Cernes ou poemas para os átomos da minha solidão". O livro de Pâmela acaba de ser publicado em Coimbra, Portugal. Seus poemas estão sendo lidos na Universidade de Coimbra. A Coleção "Mínima" se destina exatamente aos universitários de muitos países que vão estudar em Portugal.
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É mais um feito para a poesia de Pâmela Filipini, que sabe bem lidar com as palavras, dentro do que se espera de alguém com sua idade. Pode parecer que não, mas isso conta sim. Uma bagagem existencial não se ganha do dia para a noite ou da noite para o dia. Não. Essa bagagem existencial se ganha com o tempo até ser transformada em poesia. Pâmela está no caminho correto. Extrai de si o que a poesia lhe reserva.
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Fiz questão de colocar este texto no meu blog, para enaltecer uma poeta que nasce consciente do que é a poesia, do que ela significa na vida das pessoas.
Deixo abaixo o prefácio que escrevi para o primeiro livro de Pâmela. Lançarei mais um livro em Portugal, "23 elegias da mão esquerda" no dia 21 de outubro, quando, então, terei os livros de Pâmela. E guardarei um tempo para falar sobre Pâmela numa palestra que farei na Casa da Escrita.

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A POESIA DA SOLIDÃO

                       Álvaro Alves de Faria 
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Meu ato de escrever poesia é uma tentativa de ser em mim e me enxergar no mundo. É assim que Pâmela Filipini, de apenas 21 anos, se situa diante desse quadro tantas vezes doído de escrever, de atravessar as palavras para se redescobrir sempre diante de uma paisagem destruída. Pâmela deixa claro: “A forma como enxergo o mundo é também a forma da minha palavra”. De uma pequena cidade do interior de Rondônia - esse Brasil desconhecido - essa poeta é uma afirmação da mais séria e honesta poesia que este país ainda produz. Este “Folhas dos Ossos ou o tratado das coisas insignificantes” é prova eficaz de que vale a pena acreditar, porque, seja como for, a poesia existe, está em todo lugar, basta ter olhos de observação, basta sentir, basta saber colher. Os poemas de Pâmela exprimem-se numa palavra com rumo certeiro, que é o sentimento humano. Exatamente o sentimento humano que parece estar proibido atualmente na poesia brasileira pelos que se julgam donos da palavra. Estes poemas são, também, a afirmação de uma profunda solidão que, na verdade, é a própria alma dessa poesia que atravessa a pele e se estende em tudo que pertence à vida. “Sou pobre de geografias/só me encontro no tropeço”, diz ela em um  poema, sinalizando sua literatura poética e até mesmo sua própria vida. Ela está nestes poemas. Vive nestes poemas. Os poemas são ela, sabendo que   amar é a vida praticando seus exercícios, como ela afirma. Por isso diz com razão em outro poema: “Ausentei-me do mundo para estar/presente em mim mesma”. Estamos diante de um livro de poemas, um belíssimo livro de poemas, escrito especialmente com essa dor de uma solidão feroz, que consome por dentro e por fora, consome as coisas, os objetos, a solidão que consome a própria solidão. Esse sentimento percorre todo o livro de Pâmela Filipini com poemas elaborados somente com a palavra da poeta e o que sente diante do mundo e do que a cerca. Pâmela diz que nasceu antiga e se sente assim antiga. Sua poesia é sua forma de fazer com que seu espírito não expire. Observa que sua linguagem no mundo é a poesia: “A poesia é um nascer constante e, portanto, um morrer constante, por isso ela dói e incomoda. A poesia é o estado natural das coisas miúdas e, muitas vezes, insignificantes. É uma entidade existencial tão humana quanto a própria humanidade”. Esse é seu retrato feito por ela mesma, explicando que ser poeta é um estado de solidão. Pâmela adianta em um poema que quer ser de si mesma a própria prece. E que há algo sagrado em ser sozinha: “É preciso se reinventar todos os dias como os pássaros que repetem os voos”. Pâmela assegura que as pessoas são só por essência e isso incluiu especialmente a poesia: “Ser poeta é ser um estado de solidão. O poeta não sabe como a alma das coisas e dos seres acontecem nele, mas sabe quando a poesia está presente”. Não pode haver explicação mais clara. Vejam: “Quem se arma com poesia/ luta somente as próprias/guerras”. É assim mesmo. Há de se destacar, também, a delicadeza destes poemas, destas palavras, a delicadeza da poesia de mulher, que só a mulher sabe cultivar e dizer, porque pertence a um universo desconhecido da maioria, mas que vive sempre, está em todo lugar. “A poesia é como uma vela que ilumina para dentro, um silêncio que silencia outros silêncios até que tudo se torne uma prece dirigida à miséria humana”. Por esse motivo, afirma que o poeta é o próprio espírito da solidão. Só a poesia, como a da Pâmela, pode alcançar estados de beleza assim: “Eu morro/morro com a tristeza/de um domingo à tarde”. Mais: “Se te pareço cansada/é porque/consegue/me enxergar/como sou”. Ou ainda: “As folhas caem nos quintais/para mostrar/que as árvores também/possuem seu próprio/jeito de chorar”. Fazia muito tempo que não surgia um livro de poesia assim, uma espécie de ferimento que não se fecha. Não se fecha mas está sempre aberto à vida. Esta poesia de Pâmela Filipini é uma narrativa de se sentir sempre, pelo que contem de beleza, desse ato poético que é seguir. Por isso, como ela diz, toda a canção de vida só pode ser cantada no coração.      

 

                                                        

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

SOLIDÃO QUE CORTA A VIDA.

(POR FAVOR, NÃO DEIXAR COMENTÁRIO)

A solidão é uma coisa palpável. Concreta. Doída. Escrevi hoje no tuíter o que sinto: "Solidão brutal é quando a gente se olha no espelho e não vê mais a própria imagem". É assim que sinto. Muitas vezes me vejo imóvel em mim mesmo. Estar só independe da multidão. Independe de tudo. Estar só é estar longe de si mesmo, dentro de si mesmo, fora de si mesmo. A solidão muitas vezes nem machuca mais. É como se fizesse parte do próprio corpo. Nesta manhã fiz a última leitura de meu livro a sair em Portugal em outubro, "23 elegias da mão esquerda". Sempre escrevo ou leio na minha biblioteca ouvindo fados de Lisboa ou de Coimbra, que são diferentes. E escolhi ouvir a fadista Mariza, um CD de uma pessoa que vive pulsando em meu coração. E uma das faixas, "Boa noite, solidão", me fez sentir mais. E não é possível sentir mais. Ouvi umas 15 vezes a mesma faixa, como se necessitasse ter certeza de alguma coisa. Foi quando escrevi essa frase de hoje que está no tuíter. Deixo a letra do fado, sempre um poema. Letra e música de Jorge Fernando. Aquela que me deu o CD pediu que eu ouvisse bem essa faixa e outra, "Promete, jura". Dói ouvir a voz de Mariza. Mas também dói não ouvir. É como a solidão existe. Essa solidão que tem a ver com toda a poesia, com todo poema, pelo menos no meu caso.

Boa noite, solidão,
vi entrar pela janela
o teu corpo de negrura
quero dar-te minha mão
como a chama duma vela
dá a mão à noite escura.

Os teus dedos, solidão,
despenteiam a saudade
que ficou no lugar dela,
espalhadas saudades pelo chão
e contra minha vontade
lembras-me a vida com ela.

Só tu sabes, solidão,
a angústia que traz a dor
quando o amor a gente nega.
Como quem perde a razão,
afogamos nosso amor
no orgulho que nos cega.

Com o coração na mão
vou pedir-te sem fingir
que não me fales mais dela.
Boa noite, solidão,
agora quero dormir
porque vou sonhar com ela.