sexta-feira, 9 de outubro de 2020

POEMA

Em vez de escrito, posto hoje um poema falado por mim que lerei ainda este mês no Encontro de Poetas Iberoamericanos em Salmanca, na Espanha, desta vez em homenagem ao poeta espanhol Gabriel y Galán.




domingo, 9 de agosto de 2020

MONTSERRAT VILLAR GONZÁLEZ: POESIA COMO LIBERDADE

 

Fico com as palavras de Ana Maria Haddad Batista, escritora brasileira,  graduada em Letras, mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e ainda pós-doutoramento em História da Ciência, também pela PUC-SP e pela Universidade de Lisboa (FAPESP). Ela prefaciou os poemas da poeta de Espanha Montserrat Villar Gonzalez, que lançou no Brasil, pela Editora Patuá, de São Paulo, uma antologia poética, “Poemas escolhidos”,  reunindo parte de sua obra, uma poesia que revela alto nível de qualidade poética e um zelo especial no tratamento do poema, na elaboração do poema, para que o poema seja uma demonstração da palavra mais funda que um poeta pode ter.

 

         Ana Maria Haddad diz: “A poesia de Montserrat Villar Gonzalez é caudalosa. Amorosa. Profunda. Imersa em memórias que ora se dispersam para a angústia, ora para momentos de solidão, mas sempre com a presença de uma ternura que ultrapassa os umbrais da delicadeza e apontam para o infinito dos afetos que são construídos pelas aberturas que a vida possibilita”. Palavras corretas. Montserrat é uma poeta que abraça o mundo na pequenez deste momento que vivemos, com uma palavra solidária que tece a poesia cuidadosamente e é com esse cuidado que ela elabora seus poemas que marcam sua trajetória de vida.

 

          Montserrat deu à sua antologia o título de “Melhores Poemas”, o que deve ter sido uma escolha difícil, já que todos seus poemas são melhores, resultado de um trabalho que não cessa nunca. Montse diz que sua relação com o português vem da aldeia onde nasceu, Baños, Ourense, somente a 14 quilômetros de Portugal. É licenciada em Filologia Hispânica e Filologia Portuguesa. Professora, poeta e tradutora. Atualmente trabalha em sua tese de doutorado em Poesia na Universidade de Coimbra.

 

         No último poema desta antologia, “Testamento”, ela afirma: “Aqui estou/ na frente do nada./ Nas minhas mãos uma caneta/ e um chocalho de sonhos/ que contém o mar/ e afoga minha solidão”. Na frente do nada. Como a dizer: terá valido a pena? Esse é o nada que resta de um mundo mergulhado em destroços muitas vezes impossíveis de superar. Na Terra, Montse afirma estar entre suicidas à espera de uma vacina salvadora contra a melancolia. Em outro poema, ela explica que, diante desse quadro, decidiu abandonar essa realidade: “Algum dia/ não me lembro quando/ decidi fugir do meu mundo/ e ficar nas memórias”. Talvez seja mesmo o melhor, viver apenas na memória, onde tudo de guarda muitas vezes para nunca mais. Poemas assim sinalizam o que Montserrat Villar Gonzalez tem a dizer, diante de um mundo de negação à própria poesia que, no entanto, insiste em existir. E essa poesia muitas vezes se rende, como a poeta observa em outro poema: “Render-se/ perante a tirania da imperfeição/ que nos persegue./ Render-se/ perante a impossibilidade de fazer sorrir/ as pessoas que olham para nós.”

 

         Com versos assim, a poesia de Montse representa um testemunho de seu tempo em que quase tudo é amargo e não há por onde escapar. No entanto, sempre valerá a palavra de um poeta que participa da vida sem fazer concessões às facilidades. É o caso de Montserrat Villar Gonzalez, que segue pelos caminhos difíceis de seguir: “Dar pedal para poder atravessar/ a fronteira do que você não é/ se ficar na mesma casa de bonecas/ que eles nunca lhe ofereceram”.

 

                            Dar pedal até que suas pernas doam

                            tentando fazer que os filamentos metálicos

                            segurem o círculo motor que direcionam

                            ao não conhecido e, mesmo assim mordido

                            que você espera para apaziguar o frio.

                            Dar pedal apertando até a dor

                            um guiador deteriorado que em alguma queda

                            se embutiu em sua barriga, deixando uma marca

                            até este presente em que você lembra.

                            Dar pedal com seus membros inferiores

                            costurados aos pedais para não desistir nessa tentativa

                            de se tornar na cadeia que só trava se você quiser.

 

         Esse é o universo poético de Montserrat Villar Gonzalez que vê o mundo com outros olhos. A vida não é mesmo um mar de rosas que muitos insistem dizer. Cabe ao poeta abrir essa janela para que se veja o que de fato acontece. Parece estar tudo perdido num deserto de ideias e destinos. Tudo que se apaga, a Beleza que desaparece, a solidariedade que falta. Os olhos femininos de Montse explicam melhor um mundo que se destrói a cada dia, cada vez mais. Ela observa que cada vez mais a poesia se torna

necessária, exatamente quando tudo parece perdido.

 

         -A poesia é um bálsamo que ensina a respirar de outra maneira e a ter um outro olhar para a realidade. A poesia e todas as artes ajudam a viver. Sem ela a vida do ser humano não teria sentido. Tudo seria estritamente material. Não é possível viver assim. Somos seres espirituais e as artes, a poesia,  preenchem essa parte que tem em nós a necessidade de viver e acreditar na Beleza, no inatingível.

 

         Montserrat Villar González diz que o ser humano tem a necessidade de envolver-se com o impossível. Esse lado interior pulsa sempre, forte, precisa ser explorado pela vida para se ter a certeza de que realmente estamos vivos. É a necessidade do ser humano de criar e evoluir sempre. É um sentimento intrínseco a ele mesmo. A poesia e a arte alimentam esse anseio humano.

 

         -Minha poesia nasce da necessidade de refletir e ordenar em mundo que nos rodeia, comunicando-se de maneira profundamente honesta. E isso inclui desde minhas sensações mais íntimas até o mundo que observo e percebo ser um mundo injusto e cruel, que precisa mudar. Um mundo que precisa ser transformado em seus valores e princípios. A poesia tem essa condição e essa força de mudar as coisas em nome da vida por viver.  

        

         Montserrat assinala, em outro poema, como se dissesse diante de seu espelho: “Minha sombra desaparece todas as noites/ e se acomoda

 no avesso dos lençóis que me abrigam/ esperando a luz para recuperar a vida/ que me empurra para fora sem que ninguém/ saiba o que guarda”. A poesia não serve apenas para saudações tantas vezes inócuas, o que mais se vê atualmente em tanto lugar. Não. A poesia também serve para alertar, para fazer acordar, para que o homem descubra a vida e viva a possibilidade de viver. Esse é o chamamento da poeta espanhola Montserrat Villar González, que atualmente vive em Vigo, embora seja de Salamanca. Essa é a palavra. Um grito mudo, que entra para dentro.

 

                   Às vezes, volto para as florestas do meu êxodo,

                   para o mar da memória e de meu exílio.

                   Às vezes eu volto para o inicial mundo

                   do qual decidi desaparecer.

                   Às vezes ainda choro por causa da raiva e das tempestades,

                   choro com o sangue de velhas feridas       que brotam

                   em alguma noite de carência e frio de carícias.

                   Às vezes, a pele se transforma em caparação que me protege

                   tornando-me um ser de terra enegrecida.

                   Às vezes morro. Morro e espero para que os fogos

                   me transformem em cinzas que o vento

                   faça desaparecer já sem sombra e à deriva.       

 

         Mulher, o olhar de Montse é outro. É mais nítido. A poeta mulher vê além do que a própria poesia pode oferecer. Prova disto é este “Poemas escolhidos”, uma reunião de poemas deste tempo. Um tempo em ruínas em que poetas como Montserrat Villar Gonzalez se debruçam e recolhem as coisas quebradas para transformar em poesia. É bom saber que ainda existem poetas assim.                                   

 

 

                    

domingo, 26 de julho de 2020

A POESIA SOFRÍVEL DE VALTER HUGO MÃE


Valter Hugo Mãe - Salvador recebe Valter Hugo Mãe em conferência especial |  Fronteiras do Pensamento
         

*** Por favor não comentar ***

         No Brasil, a poesia transformou-se num imenso vale de lágrimas. É uma terra de poetas e pouca poesia. A produção poética atual no Brasil chega a ser deplorável, sem generalizar. Repetindo: sem generalizar. Mas acredito que esteja tudo correto, num país onde as livrarias praticamente não existem mais. Tem-se que se acrescentar, também, a mediocridade dos suplementos culturais que fabricam um grande “poeta” do dia para noite. “Poetas” que desaparecem da noite para o dia. A fragilidade dos poemas escritos em terras brasileiras atualmente chega a assustar. E essa angústia atingiu também a música popular brasileira, algo que não tem classificação hoje, tal o baixo nível. Poucos são os poetas que, verdadeiramente, levam a poesia a sério. As cenas chegam a ser ridículas e desanimadoras. Peço desculpas ao leitor para particularizar uma situação lastimável: no que me diz respeito, fugi para Portugal, terra de meus pais, e me dediquei à poesia portuguesa por 15 anos, o que me deu um lugar de respeito neste país sem rumo.

         Essa introdução serve para falar do poeta português Valter Hugo Mãe, do poeta, não do prosador, autor de romances bem aclamados pela crítica. Crítica?  E até nesses romances é possível encontrar essa poesia sofrível que, ao que tudo indica, reina soberana em quase todo lugar do planeta. Pelo menos no Brasil, onde vivo perdido a ouvir a mesma palavras de sempre. Refiro-me à poesia reunida de Valter Hugo Mãe, “Publicação da mortalidade” (Assírio & Alvim), um livro que revela que a poesia nem sempre é levada a sério como deveria ser em qualquer cultura civilizada.  Atualmente, poesia e poeta são coisas raras. É preciso aproveitar o momento de alguma descoberta da poesia consistente, escrita por poetas que conhecem seu ofício. Mas são poucos.

         Valter Hugo Mãe costuma dizer que a poesia é um sentimento. Esse é o significado, sem mais nem menos. No caso do Brasil, colocar sentimento num poema é um crime. Segue-se a cartilha de João Cabral de Melo Neto, para quem o poema devia ser como uma pedra de gelo. Faz-se um poema colocando um tijolinho sobre outro tijolinho. Nada de emoção. Poemas feitos com fita métrica, compasso, fio de prumo e outras coisas que o valham. Endeusado no Brasil, com seus poemas construídos como se fosse um edifício. Que vá para o inferno, mais os que o seguem, essa coisa chamada concretismo, que nem sei se existe ainda.

         Quem não se beira da poesia – diz Valter Hugo Mãe – não sente por completo, como se nunca experimentasse a alegria ou a tristeza, a ansiedade ou a frustração. Está correto. Mais do que correto. É necessário saber, no entanto, se ele está falando sério. Em entrevista a Severino Francisco, do jornal Correio Braziliense, de Brasília, VHM afirmou que a poesia “serve para que nos completemos no conhecimento de nós mesmos e do mundo”. Para ele, a poesia é um instrumento de revelação: “Sem o poder da palavra poética estamos algo diminutos na construção de nosso pensamento, de nossa identidade. Sigo convencido de que é na poesia que reside a maior força de que sou capaz”. Será? Será mesmo? Seja como for, quem dirá o contrário? Ninguém que de fato conheça poesia, que saiba o que é poesia, o que a poesia representa na vida do homem num mundo destroçado e invertido em todos seus valores.

                   se o vento é a ignição das árvores venha o
                   temporal elas ateadas sobre
                   as nossas cabeças desmembradas
                   da terra como voadores desajeitados meu pai
                   já conheço o vão da tua fome peço-te
                   faz de mim uma colher divina
   
         A poesia não é e nunca poderá ser uma aventura, como ocorre no Brasil atualmente, sem generalizar. Repetindo: sem generalizar. E parece não ser apenas no Brasil, em Portugal também. E tudo devidamente amparado por um jornalismo cultural que parece não ter compromisso com nada. Não pode ser uma aventura porque a poesia exige sabedoria e esse sentir as coisas ao redor, com a observação necessária, que nem todos possuem. E não possuem porque simplesmente não são poetas e ponto final. Valter Hugo diz num de seus poemas: “pela fortuna do verso/ sei que morte inteira/ passarei pelo buraco da agulha/ a biblioteca”. Vejam trecho do “poema político incorreto”:

                   as feministas entraram no parlamento
                   e depositaram as mamas nas bancadas
                   depois em silêncio nervoso
                   saíram marchando os homens ávidos
                   à força de serem ministros
                   levaram o dobro ou o triplo para casa
                   as feministas lamentaram o fato
                   disseram que contavam com um
                   contra-ataque mais inteligente

         Diz tudo. Ou nada. Um retrato do mundo em que todos estamos metidos. Na poesia do dia a dia. Mergulhados até o pescoço. E não há escapatória, em tempos do “politicamente correto”. Isso fica com os discípulos de João Cabral. Ele se dá bem com sua régua e compasso a fazer seu poema de letras contadas. E discípulos desavisados estão até mesmo em Portugal, que dizem ter certamente a poesia mais rica do mundo.

         Certa vez, o Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, de São Paulo, dedicou o número a João Cabral. E mostraram uma foto em página dupla de João Cabral diante de um canavial. Ele então disse: “Um mar verde”. Pois é, essa frase banal “um mar verde” pareceu uma grande lição de poesia mas, no fundo, representava uma palavra inexpressiva e até insignificante. “Um mar verde”. É assim que funciona aqui o jornalismo cultural, enaltecendo bobagens que nada dizem em nome não se sabe do quê. No fundo, uma grande estupidez. A ordem é enaltecer coisas assim. Mas nem tudo é assim, sempre será preciso evitar a generalização. Por honestidade.

         Para Valter Hugo Mãe, a poesia pode ser a salvação. Todos os versos são a memória dessa salvação: “Não sei se vou estar a serviço da poesia ou da prosa. Sei que não sei servir melhor do que a literatura e as palavras”, diz ele. Confessa que sua poesia influenciou sua prosa. Observa que sempre quis ser poeta e hoje é um poeta envolvido pela prosa. Isso é verdadeiro, posto que em muitos trechos de seus romances é possível encontrar algum momento poético: “Minha identidade literária vem da poesia”, como afirma. No entanto, tudo leva a crer que o discurso uma coisa e a poesia produzida é outra.

         A afirmação leva a um instante qualquer na vida de VHM, se é que assim pode ser devidamente anotado em forma de poema. Isso identifica o autor. Ele conversa consigo mesmo, mas nem tudo é possível. Mostra seu pensamento, o que sente, o que existe e o que deixar de existir. Os instantes são recolhidos, essas palavras invisíveis que fazem uma fotografia. Um outro momento diz assim:  “...reajo ao pescoço que/ iça o sol logo a/ voz matando a fome do / silêncio sou colhido depois/ de ferver em sono brando quando/ seguro o fôlego para manso/ acordar intacto/”.

         E assim caminha a poesia do instante passada para o papel e, nesse espaço, entra certa leviandade poética. A amargura de estar num mundo hostil em quase tudo: “...uso o coração para os alfinetes subo/ as beiras das calças coso os botões alinhavo/ camisas a cortar amariquei também os/ braços com tatuagens do teu/ nome vou esquecer-te rapidamente porque o/ amor inventa o ódio/”.

         VHM não deixa de usar a ironia diante do que vê. Em alguns casos, só mesmo a ironia para enfrentar tantas coisas destruídas. Ironia inclusive para ele mesmo se situar diante do que escreve em forma de poema. Não há nada a fazer. Muitos instantes revelam isso. Nada a fazer, senão que tudo siga como for possível seguir. “...fui doente de um poema/ e músico/ toquei silêncio enquanto/ kathleen ferrier cantou/”.

         Valter Hugo Mãe poderia vir para o Brasil com sua poesia porque se daria bem. Convém lembrar que me refiro à poesia, embora a prosa também seja bastante questionável. É um desses casos em que o “engrandecimento” de uma obra razoável ganha ares de esplendores porque em reinos da mediocridade tudo pode acontecer.

         Um exemplo dessa inutilidade poética, a começar pelo título, é o poema “gordo e careca”. Como se pode notar, duas palavras magníficas que de cara revelam o que tal poeta quer transmitir nestes tempos de muitas mentiras literárias. Para utilizar um termo português, o poema segue em disparates que funcionam como algoz de seu leitor desavisado, com um pedantismo fácil de encontrar no Brasil, mas não em Portugal. No entanto, Portugal também dispõe desses disparates protegidos por uma mídia que nada deixa a desejar à mídia cultural brasileira.

         Este é o caso inequívoco daqueles que se julgam poetas e se acham no direito de fazer o que bem entendem com a palavra do poema. A maior parte dos poemas deste “Publicação da mortalidade” se perde numa vulgaridade exemplar, com invenções modernosas que causam arrepios aos que entendem a poesia como poesia. Basta isso. O mundo está cheio de enganadores. Mas, seja como for e a bem da verdade, há bons momentos poéticos neste livro. Alguns. Acredito que uma obra de arte pode revelar um caráter. Pode ser, também, que uma coisa nada tem a ver com a outra. Os bons instantes poéticos deste livro são apagados pelo que existe de ruim em suas páginas. De cabotinismo a literatura está cansada e cheia até os miolos. E o que não falta é cabotino a preencher os espaços dos inocentes.

         Vejam este dito poema chamado “a dor de burro”:

                   estou a plantar florinhas nas cavidades
                    dos olhos para não ver para ver jardins

                   corro atrás das abelhas mas dá-me
                   a dor de burro e dá-me a dor de corno

                   estou a plantar florinhas  nas cavidades
                   dos cornos na arma que me escavou o coração

         Então, é assim que funciona. Você tem de ler algo assim e engolir a seco como se fosse mesmo um poema, na verdade um amontado de palavras inúteis a construir uma fotografia que chega ao ridículo da própria narrativa que se diz poética. Narrativa poética? É assim que tem que se dizer diante dos que se julgam acima de qualquer ponderação, numa análise fria e sem enaltecimentos inconsequentes dos que costumam bajular as inutilidades.               
         Para não dizer que não falei das flores, eis um momento de poesia neste livro de muitas lacunas poéticas: “Sou apenas um poeta/ ignoro também as coisas todas/ por mais magia que exista em/ dizer que posso falar do mar/ por incêndio de água e até erguê-lo em/ chamas numa só palavra isso/ será apenas um/ efeito secundário da boca”. Ocorre que um livro não vive de instantes e sim de todo seu conjunto. Não pode um livro de poesia viver de poemas apenas sofríveis.

         No fim, para não gastar muito espaço, esta antologia “Publicação da mortalidade” é um punhado de instantes sofríveis que não resistem a uma crítica honesta em relação à poesia. Salvam-se alguns momentos pinçados em alguns ditos poemas comprometidos com o próprio poema. Há figuras que se atiram num Olimpo como deuses, mas não são deuses de coisa nenhuma.

         Assim segue essa narrativa em forma de poema, retratando o instante, talvez o fim de tudo, ou o início, não se sabe. VHM se debruça nas palavras e deixa seguir o sentimento até se exaurir em si mesmo, na imobilidade do que morre ou do que salta da palavra que se faz. Nesse sentido, não há muito a dizer. Não há nada a dizer. Há, na verdade, tudo a dizer. O poeta morre e vive muitas vezes nos seus poemas e aí está a sua poesia. O livro não chega à vulgaridade, mas beira a esse caos de cantares inócuos.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

PAIXÃO, UM NOVO LIVRO COM DENISE EMMER

Estou escrevendo um novo livro de poesia juntamente com uma poeta mulher, Denise Emmer. Este será o quinta livro que escrevo com uma mulher. O primeiro foi com a poeta brasileira, do Rio de Janeiro, Thereza  Christina Rocque da Motta. A seguir, com a poeta espanhola Montserrat Villar González. Depois com a poeta portuguesa Leodádia Regalo e mais recentemente com a italiana Stefania Di Leo. Todos esses livros foram publicados no Brasil, na Espanha, Itália e Portugal. Publico um dos poemas do livro com o título provisória "Paixão". Como nos livros anteriores, os poemas conversam entre si sobre a própria poesia, o amor, a condição humana e vários outros temas que surgem durante a escrita, ressaltando, sempre, as linguagens poéticas feminina e masculina.

Não saberei como te amar
porque não tenho o silêncio das pombas.
Será preciso seguir tuas  mãos
e na tua música me deixar viver
o que não sei.

Não sei de ti como não sei das conchas
e das pérolas.
Sei apenas dos abismos que me chamam,
mas não sei voar.

Não saberei das canções medievais
que me habitam,
camponês que sou a colher os figos
junto às aves que me cercam à mesa,
porque o amor se quebra como uma xícara.

Não saberei guardar teu nome
na minha caixa de segredos inacreditáveis,
quando vir que a tarde deixou de existir
no meu cálice de licor de Portugal
e que dos equívocos nada se tira,
por isso tenho a pele ferida.

No entanto, estou na casa que me abriga,
aquele endereço que desconheço,
onde deixo meus sapatos antigos
que conhecem todas as ruas
em que sempre estou perdido
à procura de alguém.

Faz tudo muito do que não me lembro,
de meus dedos de porcelana
a percorrer o vaso de teu corpo,
escorrendo em mim o teu gosto,
até que tudo deixe de ser
nos ais que nos pertencem. 

segunda-feira, 2 de março de 2020

O REI

O rei pulou da cela
para Paris
como um mágico
de um disco-voador,
mas antes
tomou bênção
no Vaticano
vestindo a camisa
do San Lourenço
da Argentina;

Pulou da cela
para a classe executiva
e babou palavras
nos discursos costumeiros
cheirando a álcool.

Depois o rei
voou para a Suiça
em lugar especial
dos banquetes finos
das favelas
e dos derrotados
nas ruas escuras.

Depois pulou
para a Alemanha,
o rei
e seus afazeres,
com sua bolsa
de traições
e mentiras,
o rei,
ora o rei,
o rei sobe
ao palanque
e fala bêbado
dos problemas
dos anos de 1960,
onde parou
o oco de sua cabeça.

O rei,
vejam o rei,
vejam o rei
fazer mágica
e falar só
para plateias
favoráveis.

Vejam o rei
no vômito
de sua mente,
vejam o rei
delirando sobre
o próprio cadáver,
vejam o rei
saltitante no seu riso,
no sarcasmo
de seu embuste,
vejam o rei
no cinismo
de sua cara,
vejam o rei
que traiu a vida,
vejam o rei,
vejam o rei,
vejam o rei
que deixou
companheiros
no caminho
e que zela
pelo seu bem-estar,
vejam o rei,
o rei
perdido em si mesmo,
não esqueçam o rei,
não esqueçam o rei,
o rei
haverá de pagar,
haverá de pagar.

Quando o rei acordar
será tarde demais
para chorar
as pitangas brasileiras.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

MARIA JOÃO CANTINHO: O POEMA QUE CANTA A BELEZA






Poetas há muitos. Mas são poucos, os poetas. São poucos os que buscam a palavra no mais fundo de si para construir o poema sem hesitação poética. Como o carpinteiro que, aos poucos, vai talhando a madeira em medidas certas. Assim é também com a palavra. São poucos os poetas que, verdadeiramente, compreendem esse ofício. Vejam o início deste poema: “Já não é da língua, este estranhamento/ onde reconhecemos o bárbaro, o invasor/ mas o de uma indigência outra/ a de uma fúria assassina que se abate/ sobre as cidades antigas do deserto”. Um poema da poeta portuguesa Maria João Cantinho, também contista e ensaísta. Seu livro “Do Ínfimo”, publicado no Brasil pela editora Penalux, de São Paulo, é uma afirmação da poesia que brilha e vai em busca das palavras do universo que o poeta que de fato é poeta tem dentro de si, como uma paisagem que envolve tudo, o sentimento, o apelo, a espera, o encontro, o encantamento, mesmo com tanto desencanto. Maria João Cantinho diz que “a poesia é, antes de mais, um trabalho de linguagem muito exigente, posto que o poeta é, ao mesmo tempo, sujeito. Mas o que ele visa é, não apenas exprimir os seus sentimentos, aceder a uma voz universal e esse é essencialmente o mérito da poesia”. Conhecedora de seu ofício, a poeta portuguesa sabe percorrer os labirintos da palavra e do poema, a reger esse instante de plena magia que é o sentir. Como ainda afirma Maria João Cantinho, “a poesia deve tocar aquele que a lê, estabelecendo com o leitor um diálogo, senão não cumprirá sua função”. Está correto. É assim. Sempre será assim. Esse percorrer lugares invisíveis e ocupar o espaço vazio de um tempo que fere em tudo. Antes de tudo, uma poesia elegante. Maria João nasceu em Lisboa, viveu a infância em Angola e retornou a Portugal em 1975, com a guerra de Angola. Doutorou-se e Filosofia Contemporânea. Além de docente, é poeta, escritora, crítica e ensaísta. Tem vários livros publicados em vários gêneros, incluindo a poesia. É investigadora do Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa e do Centre d´Estudes Juives da Universidade Sorbonee IV. Editora da revista Caliban, de Lisboa.

Desdobra-se o nojo, o sangue, a vida
que se celebra no avesso da noite,
o olhar acossado no nada, esta raiva
de uma bomba prestes a detonar
na flor amaldiçoada
de um silêncio inventado.

Como epígrafe de “Do Ínfimo”, Maria João Cantinho usou palavras de Rainer Maria Rilke, como a situar a poesia deste belo livro: “Há pessoas que usam um rosto durante anos a fio e é claro que ele se gasta, se suja, se quebra nas rugas, se alarga como as luvas que foram usadas em viagem. São pessoas poupadas, simples. Não o mudam, nem sequer o mandam limpar”. Mas, no fundo, essa citação de Rilke soa como uma certa homenagem ao poeta que percorre o tempo com palavras inesquecíveis. Maria João Cantinho desvenda essa trilha da poesia que exige tudo de seu poeta, o suor e a lágrima, o grito e o silêncio e o que há, ainda, por inventar.

Não sei senão do ínfimo
e do murmúrio das pequenas coisas,
as que não chegam à palavra
como a sombra ou o vento
desenhando-se sob os álamos,
em quieta reverberação.

O livro de Maria João é feito de poemas que se fazem sentir, como a abrir um buraco no peito do leitor. As palavras, quase sempre machucam. Mas não são todos os poetas que sabem disso, que sabem dos segredos da poesia, dos cortes da poesia, do sangue da poesia. Não sabem da poesia. Não é o caso de Maria João, que descortina com sua palavra poética o sentido das coisas que nem todos conseguem ver ou sentir. Vejam a força poética desta estrofe: “Nos poemas, dir-me-ás,/ poeta de mãos melífluas e cigarro cansado/ pode ainda escrever-se o nome de deus/ esse hieróglifo sujo de sangue/.../”. Os poemas de Maria João representam uma viagem a descobrir mundos talvez tão perto, talvez tão distantes, talvez no lugar em que só os verdadeiros poetas têm o direito de chegar. A poesia se conquista por direito. Ao poeta cabe desvendá-la em palavras que tanto podem erguer as paredes como podem abrir a porta para a descoberta da vida. Os poetas escrevem, todos os poetas escrevem, mas não são todos que chegam à exuberância na palavra. Maria João chega. Com versos elegantes, aquela palavra delicada própria dos grandes poetas.

Porque só se pode sonhar
no lugar de um outro, escrevo
e ainda assim sucumbo
numa mudez sem saída
porque a língua não salva o olhar
nem a mão, nenhuma mão, pode tocar-te.

Para Maria João Cantinho, ao exprimir o universo do poeta, a poesia, dependendo das suas circunstâncias, pode ser potencialmente uma arma e não faltam casos de poemas que incendiaram revoluções e posições políticas. Cita, como exemplo, a recente poesia de Bei Dao, poeta chinês que é um grito de esperança, face à difícil situação que a China vem enfrentando: “Um poema pode ser esperançoso não apenas para aquele que o escreve, como também para quem o lê e, nesse sentido, tem uma dimensão profundamente política e de resistência”. Assim como os poemas, as palavras da poeta vigorosa que é Maria João Cantinho levam à reflexão num mundo destruído, de escombros que escondem e ao mesmo tempo mostram a brutalidade de um tempo mergulhado na escuridão.

De nada vale lembrar, é vão,
aos que já não falam a língua dos homens
mas balbuciam um estertor de morte
que as ruínas cantam, no seu alvorecer
um tempo que foi nosso, um tempo
que ainda é nosso, intocável, sagrado.

O tempo que ainda é nosso, diz a poeta. Um tempo sagrado. Intocável. Esse tempo que falta conquistar de vez, com a coragem dos que partem para sempre com sua lança de fogo, que é a palavra, que é o poema. A poesia difícil de encontrar. Muito difícil. Mas lendo um livro assim, como “O Ínfimo” pode-se ter a certeza de que nem tudo se perdeu.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UMA CANÇÃO POÉTICA A SÃO FRANCISCO DE ASSIS, NA VOZ DE NEY MATOGROSSO

.
Meu amigo poeta Celso de Alencar, que está em Nova York, enviou-me de lá este vídeo, por saber que sou admirador da vida e da obra de São Francisco de Assis. Um momento de alento. De poesia também. Veja e sinta. Sempre será preciso sentir. E guardar.